Estado amplia rastreio nutricional e ultrapassa meta global de aleitamento materno
O monitoramento do estado nutricional e do consumo alimentar da população paranaense pelo Sistema Único de Saúde (SUS) registrou um avanço expressivo na última década, gerando um balanço inédito para o Estado. Dados consolidados pela Secretaria da Saúde do Paraná (Sesa-PR) mostram que a taxa de cobertura da avaliação – dados antropométricos de peso e altura – na Atenção Primária à Saúde (APS) saltou quase cinco vezes.
Abrangendo a série histórica de 2012 a 2025, o índice passou de 7,60% para 39,16% da população-alvo. Em números absolutos, o volume desses registros pulou de pouco mais de 804 mil para a marca de 4,13 milhões de pessoas avaliadas em todo o Estado.
Já o rastreio dos marcadores de consumo alimentar, instrumento de avaliação rápida aplicado por profissionais da APS que investiga o consumo de um conjunto de alimentos e comportamentos alimentares praticados no dia anterior, atingiu a cobertura de 4,74% da população em 2025.
O índice objetiva conhecer o padrão de consumo alimentar que se relaciona à alimentação saudável ou não saudável, tanto individual quanto coletivo, e começou a ser monitorado pelo sistema de informação em 2015.
O volume de registros saltou de 16.885 em 2015 para 501.551 em 2025, alcançando uma marca quase 30 vezes maior que a inicial, o que representa um crescimento de 2.870,39%. Essa ampliação estrutural é reflexo direto do fortalecimento das ações de busca ativa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e da vinculação dos indicadores a programas estaduais de repasse financeiro por desempenho.
Com essa alta capilaridade de avaliações físicas, o Governo do Estado consegue traçar um diagnóstico preciso e descentralizado do estado nutricional dos paranaenses em cada região. Paralelamente, o avanço nos registros de consumo alimentar permite uma amostragem cada vez mais sólida sobre os hábitos de alimentação em âmbito estadual, direcionando o planejamento de políticas mais assertivas.
“Atingir a marca de mais de 4 milhões de pessoas avaliadas não é apenas um número, mas a prova da força e da capilaridade da nossa Atenção Primária. Quando o Governo do Estado passa a conhecer de perto o estado nutricional de cada município, deixamos de atuar no escuro. Esses dados robustos nos permitem desenhar políticas públicas mais precisas, garantindo que o cuidado chegue ao paranaense de forma adequada”, ressalta o secretário de Estado da Saúde, César Neves.
ALEITAMENTO - A robustez desse rastreio revelou vitórias importantes, especialmente na saúde materno-infantil. O Paraná ultrapassou a meta global de Aleitamento Materno Exclusivo (AME) estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto o objetivo mundial para 2025 era alcançar 50% de adesão, o Estado atingiu o índice de 57% de bebês exclusivamente amamentados até os seis meses.
O reflexo desse cuidado inicial resultou em outros recuos históricos captados pelo monitoramento: a desnutrição infantil caiu para 3,25% na faixa de 6 a 24 meses (a menor taxa desde o início da série histórica), e a obesidade entre bebês menores de seis meses caiu de um pico de 6,06% (em 2014) para apenas 1,86% em 2025. A desnutrição entre gestantes também apresentou queda expressiva, passando de 17,53% em 2012 para 9,86%.
Para a diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Sesa, Maria Goretti David Lopes, o avanço reflete o fortalecimento da rede materno-infantil. “Ultrapassar a meta mundial da OMS no aleitamento materno é uma conquista enorme para o Paraná. O leite materno é o primeiro escudo protetor da criança. O reflexo desse cuidado intensivo já aparece na queda da desnutrição e da obesidade nos primeiros anos de vida, garantindo um desenvolvimento muito mais saudável e seguro para as nossas crianças”, avalia.
PONTO DE ATENÇÃO – Se a primeira infância concentra os melhores indicadores e a desnutrição geral apresenta patamares baixos na maioria das faixas etárias, os dados históricos acendem um alerta para uma mudança de perfil. O levantamento aponta a consolidação do excesso de peso (sobrepeso somado à obesidade) como um dos principais desafios da saúde pública atual.
O mapeamento evidencia o acúmulo contínuo de gordura corporal ao longo dos ciclos da vida, requerendo atenção redobrada das famílias e das equipes de saúde conforme o avanço da idade. Na fase escolar (5 a 10 anos), após um pico registrado durante o isolamento da pandemia (22,54% em 2021), a obesidade iniciou uma trajetória de queda, fechando 2025 em 17%. No entanto, ao se somar o sobrepeso, o excesso de peso já está presente na rotina de mais de 34% dos alunos.
O cenário exige olhar atento a partir da adolescência, faixa etária que registrou a aceleração proporcional mais rápida no Estado: a taxa de obesidade saltou de 8,12% em 2012 para 17,35% em 2025. Ao atingir a idade adulta, o excesso de peso torna-se a condição predominante, alcançando 72,45% das pessoas acompanhadas pela rede pública, com 38,31% já com indicativo de obesidade. Entre as gestantes, a taxa de obesidade também exige cuidados continuados, tendo dobrado ao longo da década e atingido 30,36%.
As pessoas idosas, por sua vez, apresentam uma dinâmica que necessita de acompanhamento específico. Embora mais de 55% dos idosos avaliados apresentem sobrepeso, a desnutrição nesta faixa etária ultrapassa a barreira dos 10%, caracterizando um quadro de dupla vulnerabilidade nutricional.
ULTRAPROCESSADOS – O cruzamento das informações de peso com o mapeamento estadual do consumo alimentar reforça a necessidade de ações de promoção, proteção e apoio à alimentação adequada e saudável. O lado positivo é a resistência da base cultural brasileira: o feijão continua presente na rotina de 82% a 90% da população em todas as idades, quase sempre acompanhado de um consumo elevado de frutas e hortaliças – acima de 80% entre adultos e idosos.
O fator que gera alerta, no entanto, é o alto consumo de alimentos ultraprocessados em todas as faixas etárias, caracterizando uma introdução precoce nas refeições. Cerca de 80% (quatro em cada cinco) das crianças a partir de dois anos, dos adolescentes e dos adultos consomem alimentos ultraprocessados, como biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, embutidos e macarrão instantâneo.
“Um dos principais alertas que esses dados nos trazem é justamente a elevada prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados em todas as faixas etárias, principalmente na introdução da alimentação complementar infantil. Uma introdução inadequada a partir dos seis meses influencia o paladar e a aceitação de alimentos saudáveis, criando hábitos que tendem a se consolidar”, orienta a chefe da Divisão de Promoção da Alimentação Saudável e Atividade Física da Sesa, Cristina Klobukoski.
Ela acrescenta que isso reflete diretamente nessa aceleração do excesso de peso observada nas crianças maiores e a partir da adolescência. “É urgente olharmos para a alimentação complementar com maior atenção, ofertando uma alimentação adequada, variada, baseada em alimentos in natura, sem a introdução de alimentos ultraprocessados para as crianças menores de dois anos", alertou a chefe da Divisão.
O consumo frequente também se mostra nos líquidos: bebidas adoçadas, como refrigerantes e sucos artificiais, já fazem parte da rotina de 63% das crianças pequenas e de quase 70% dos adolescentes. Mais do que apenas o excesso de calorias, a elevada presença de aditivos químicos e o nível de ultraprocessamento desses produtos criam um padrão prejudicial que contribui para a obesidade e para o desenvolvimento de doenças crônicas que tendem a se consolidar na vida adulta.
Para apoiar a alimentação adequada e saudável e evitar que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre as famílias, que muitas vezes são impactadas pela desinformação e o marketing agressivo da indústria, a Sesa reforça o papel das equipes de saúde na qualificação contínua dos profissionais da Atenção Primária.
O objetivo é garantir que os municípios estejam preparados para orientar a população com informações seguras e confiáveis, baseadas em evidências, buscando a promoção da saúde por meio da alimentação adequada e saudável, com o desenvolvimento da autonomia das pessoas e respeito às suas culturas e modos de viver, bem como a articulação intersetorial para a segurança alimentar e nutricional.
AÇÕES DO ESTADO – Para enfrentar o avanço do ganho de peso e promover a alimentação adequada, o Governo do Estado tem fortalecido a atuação nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), a principal porta de entrada do SUS. Nesses espaços, as equipes fazem o acompanhamento multiprofissional, que abrange desde ações de promoção da saúde, consultas e orientações nutricionais até o apoio psicológico e a indicação de fisioterapia e atividade física.
A Sesa também atua de forma intersetorial, integrando conselhos e comitês estaduais voltados à segurança alimentar, saúde no ambiente escolar e programas sociais de transferência de renda, visando interferir nos determinantes e condicionantes da saúde. Além disso, trabalha ativamente na qualificação das equipes nos 399 municípios.
De 2020 a outubro de 2026, foram ofertadas mais de 100 capacitações e oficinas para os profissionais da Atenção Primária, abordando desde a obesidade infantil e novas curvas de ganho de peso gestacional até alimentação saudável e atividade física nas doenças crônicas não transmissíveis. Como marco desse cuidado, em 2022, o Estado publicou a “Linha de Cuidado às Pessoas com Sobrepeso e Obesidade”, diretriz oficial para o atendimento integral nessa área.
Além das capacitações, o Estado distribuiu mais de 25 mil exemplares de materiais técnicos, como o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, os Protocolos de Uso do Guia Alimentar, Manuais Instrutivos e cadernos de atividades.
Todo esse esforço educacional e estrutural é atrelado a incentivos financeiros: a Sesa monitora indicadores vinculados a repasses de recursos, como o Provigia-Paraná e o Proaps-Paraná, que bonificam os municípios pelo aumento da cobertura de vigilância nutricional e o cuidado contínuo à pessoa com obesidade.
VOLUME ASSISTENCIAL – Os investimentos e capacitações refletem diretamente no volume de assistência prestada aos paranaenses. Entre 2020 e setembro de 2026, a Atenção Primária do Paraná promoveu mais de 96 mil atividades coletivas sobre alimentação saudável, alcançando 2,6 milhões de participantes. Na área de práticas corporais e atividade física, foram mais de 343 mil ações, com 4,8 milhões de participações.
No cuidado clínico individualizado, os postos de saúde de todo o Estado realizaram 538,6 mil atendimentos focados no tratamento da desnutrição e mais de 1,7 milhão de consultas voltadas ao tratamento da obesidade, consolidando a Atenção Primária como principal ponto da atenção nutricional no SUS.
O relatório completo pode ser acessado neste .
Fonte - AEN


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